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O FENÔMENO DAS FAKE NEWS E SUA INFLUÊNCIA NO PROCESSO ELEITORAL

O presente artigo visa analisar qual a influência das fake news no processo eleitoral brasileiro. Pretende-se abordar o conceito de fake news e como a questão vem impactando o regime democrático. O tema possui grande relevância no cenário político atual uma vez que pode alterar de forma significativa a opinião pública e consequentemente o debate político acerca de determinada questão, candidato ou partido.

Por Aline Ribeiro Pereira

A influência das fake news no processo eleitoral já constitui um fato entendido pela maioria dos autores que pesquisam o tema. Magrani e Oliveira (2018, p. 9-34) afirmam que os eleitores formam opinião sobre determinado candidato e sobre o processo eleitoral ao serem impactados pelas fake news, apesar disso, ressaltam que ainda não é possível afirmar a dimensão desses impactos. No mesmo sentido, Veronese e Gabriel (2018, p. 44) sustentam que “a difusão de notícias com desordens informacionais tem o condão de permitir um descontrolado fluxo de boatos e de notícias falsas capazes de trazer consequências nocivas ao regime democrático e até mesmo aos direitos de personalidade de cidadãos”.

Conforme conta Träsel (2018, p. 69-88), o termo fake news foi usado pela primeira vez em 2014 pelo jornalista Craig Silverman, ao se referir a um relato inverídico de que uma cidade inteira no Texas teria ficado em quarentena em razão de uma família ter contraído ebola. Entretanto, em 2016 a expressão passou a ser usada nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, pelo então candidato Donald Trump que passou a valer-se do termo para se referir a qualquer notícia que não fosse de seu agrado, sendo esta falsa ou não.

Atualmente, muito se discute a respeito do conceito de fake news. Muitos autores consideram a expressão imprecisa e por isso, inadequada, acabando por renomear o fenômeno. Não obstante, é inevitável o amplo debate que vem se formando em torno da expressão que possui ampla popularidade. Segundo Allcott e Gentzkow (2017)fake news podem ser entendidas por “notícias que não possuem qualquer base factual, mas que são apresentadas ao público como fatos verdadeiros e incontroversos”. Já Machado, Steibel e Konopacki (2018, p. 55-68), afirmam que fake news são notícias falsas que têm como objetivo polarizar o discurso público, além de fazerem uso de recursos emocionais para debilitar tal discurso “intencionalmente desacreditando atores, silenciando ou ampliando vozes seletivamente e promovendo pautas específicas”. Por fim, traz-se o entendimento de Braga,  Wisse e Bozza (2018, p. 109-128) sobre o tema, os quais  garantem que tais notícias não possuem base factual e nem prévia apuração de veracidade, tendo como intenção apenas viralizar nas redes digitais.

Apesar do termo ter se tornado popular a partir de 2016, a mentira sempre esteve presente na vida política. Segundo Heuer (2019, p. 53-70), “a mentira não é realmente um fenômeno novo da ação humana, da prática no espaço privado ou político, nem da política. Investigações psicológicas mostraram que mentimos até duzentas vezes por dia”. Apesar disso, é evidente que o desenvolvimento tecnológico impactou no processo de forma determinante, uma vez que a disseminação das notícias falsas ocorre de uma maneira muito mais ampla e rápida com o advento das redes sociais.

A disseminação em massa das fake news ocorre devido a outros fenômenos que a acompanham, como é o caso do microtargeting, uma técnica que permite atingir os usuários com mais precisão, uma vez que o perfil do usuário é analisado e notícias que mais lhe interessa são direcionadas, fazendo com que o impacto seja mais direto. De acordo com os autores Machado, Steibel e Konopacki (2018, p. 62) ela se baseia “no comportamento entre os diferentes relacionamentos nas mídias sociais. Ao interagirem entre si, é possível perceber traços da personalidade dos agentes utilizando essas plataformas”. Outros meios utilizados são os filtros-bolhas, que permitem que as pessoas fiquem restritas a informações pelas quais demonstrem interesse, impedindo, portanto, o debate com opiniões diversas e os robôs e algoritmos, que realizam a conquista de seguidores, atacam a oposição e simulam discussões além de criarem:

A falsa sensação de amplo apoio político a certa proposta, ideia ou figura pública, modificam o rumo de políticas públicas, interferem no mercado de ações, disseminam rumores, notícias falsas e teorias conspiratórias, geram desinformação e poluição de conteúdo, além de atrair usuários para links maliciosos que roubam dados pessoais, entre outros riscos. (GRAGNANI, 2017).

As técnicas acima mencionadas, em especial quando atuam de maneira conjunta, apresentam riscos ao processo eleitoral e a própria democracia. Para se comprovar a gravidade da situação, uma pesquisa realizada FVG/DAP concluiu que a interferência ilegítima de constas automatizadas interferiram no processo eleitoral de 2018. No mesmo ano, “as contas automatizadas chegaram a ser responsáveis por 12,9% das interações no Twitter (FGV DAPP, 2018a)”,  “enquanto o Facebook estima serem cerca de 60 milhões de bots (Lazer, Baum, Benkler, et al, 2018)”.

Importante se faz ressaltar o papel dos partidos políticos na propagação de fake news. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a finalidade de combater tal fenômeno e entendendo que os partidos políticos são essenciais no combate das fake news, uma vez que um dos objetivos de tais notícias é atingir determinada candidatura, firmou um acordo em 2018 chamado “Termo de compromisso de colaboração com os Partidos Políticos para a manutenção de um ambiente eleitoral imune de disseminação de notícias falsas”. Entretanto, segundo Braga e Bozza (2018, p. 109-128), o acordo não obteve muita efetividade, pois apenas cinco partidos criaram plataformas para desmentir as fake news e apenas 19 veicularam notícias em seus websites sobre o problema.

Ainda, Onoda, Caldas e Neris (2019, p. 196-220) afirmam que “uma vez que determinados partidos e candidatos, utilizando-se das informações obtidas a partir do big-data, aumentam seu poder de interferir no processo eleitoral por meio da divulgação de informações falsas que possam destruir (shitstorm) ou construir (candystorm) a reputação de determinado candidato ou legenda”.

No âmbito do processo eleitoral, os mesmos autores afirmam que as fake news já se mostraram potentes influenciadoras, isso porque, ao sofrerem os impactos de tais notícias os eleitores formam uma opinião e fazem julgamento de determinado candidato e do processo democrático em si baseados em notícias falsas, embora afirmem que não é possível determinar a dimensão exercida dessa influência.

 A veracidade dos fatos e dos acontecimentos é algo positivo e necessário em uma democracia, é preciso que padrões minimamente éticos sejam considerados. A mídia tradicional, em especial a televisão está perdendo confiança da população, desconfia-se do que é dito na TV. Notícias falsas sempre existiram, não se pode dizer que é um fenômeno novo, entretanto, o desenvolvimento tecnológico impactou os processos eleitorais, uma vez que é uma rede de comunicação muito utilizada.  “Habermas, assim como outros teóricos da Escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer (Wiggershaus, 1995), já atentava para a força da mídia tradicional e seu impacto para a democracia moderna (Habermas, 2003, p. 99)”.

Observa-se que as fake news estão atingindo os usuários com certa precisão, ou seja, o tipo de conteúdo enviado está levando em conta o perfil pessoal que terá acesso à notícia, com o objetivo de causar impacto direto no leitor, é o que vem sendo chamado da técnica de microtargeting. Sendo assim, vê-se que o uso da internet como meio para que as discussões públicas atinjam diversos grupos não está obtendo sucesso, estando por polarizar o debate público, uma vez que impedem o contato com opiniões diferentes, levando ao radicalismo. Outro aspecto importante de ser analisado é o uso de robôs como forma de influenciar diretamente a tomada de decisões e a democracia, seja conquistando um número maior de seguidores, atacando a oposição e simulando debates ao postar e compartilhar mensagens em grande escala, gerando a falsa sensação de amplo a apoio público a determinada ideia ou candidato, isso não quer dizer que eles dominem completamente as redes sociais, mas sim que possuem influência direta na opinião pública.

Nesse sentido, Veronese e Fonseca (2018, p. 35-54) declaram que um dos principais problemas da atualidade é a desinformação. Da mesma forma, Träsel (2018, p. 70) ressalta que “a desinformação política emergiu como uma das principais preocupações da esfera pública global e, em particular, da brasileira nos últimos anos”. Para completar, Braga, Wisse e Bozza (2018, p. 113) sustentam que as fake news “afetam negativamente a qualidade da democracia e da comunicação política” e ainda apresentam um estudo divulgado pela agência IPSOS, o qual apresenta indícios de que o Brasil é um dos países mais afetados pela difusão de fake news no consumo de notícias eleitorais, com cerca de 62% dos brasileiros afirmando já ter acreditado em uma notícia falsa difundida pela internet. Outra pesquisa, realizada pela Reuters comprovou que 14% dos brasileiros declararam usar o Twitter para buscar notícias. Por fim, a Cetic.br identificou que em 2016 que “50% da população brasileira usa a internet para obter notícias, dos quais 68% dos usuários declararam ter compartilhado algum tipo de notícia online” (MACHADO; STEIBEL; KNOPACKI, 2018, p. 60-61).

Outro ponto importante é o fato de as notícias falsas possuírem um alcance maior e mais rápido nas redes do que as notícias verdadeiras, isso porque “produzem um estímulo psicológico que a estimula o compartilhamento pelo senso de novidade e urgência sobre a informação recebida” (LAZER, 2018, p. 1094-1096).

O problema das fake news é de tamanha importância que o TSE lançou no dia 30 de setembro de 2019 um Programa de Enfrentamento à Desinformação com Foco nas eleições de 2020, instituições públicas e privadas poderão aderir ao programa que tem como finalidade de enfrentar os efeitos negativos provocados pela desinformação à imagem da Justiça Eleitoral, à realização das eleições e aos atores envolvidos no pleito.

Conclui-se que apesar de não podermos afirmar que as divulgações de fake news são as responsáveis pelos resultados eleitorais, inquestionável é sua influência no processo eleitoral. O maior acesso à informação que a internet nos trouxe não significa que os eleitores estão melhor informados e por isso, a desinformação política é atualmente, como se demonstrou, uma das maiores preocupações do país.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLCOTT, Hunt; GENTZKOW, Matthew. Social Media and Fake News in the 2016 Election. National Bureau of Economic Research Working Paper. S/L, n. 23089, 2017.

BRAGA, S; WISSE, F; BOZZA, G. Os partidos políticos brasileiros e as fake news na campanha eleitoral de 2018. Cadernos Adenauer. Rio de Janeiro, v. XIX, n.4, p. 109-128, dez. 2018.

CALDAS, Camilo Onoda Luiz; CALDAS, Pedro Neris Luiz. Estado, democracia e tecnologia: conflitos políticos e vulnerabilidade no contexto do big-data, das fake news e das shitstorms. Perspect. ciênc. inf., Belo Horizonte, v. 24, n. 2, p.196-220, jun. 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-99362019000200196&lng=en&nrm=iso. Acesso em 24 set.  2019.

FERREIRA, Inaiara. Curitiba. CPOP, 2019. Disponível em http://www.cpop.ufpr.br/as-fake-news-sobre-kit-gay-no-facebook/. Acesso em 20 set. 2019.

FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Diretoria de análise de políticas públicas. Disponível em http://dapp.fgv.br/robos-redes-sociais-e-politica-estudo-da-fgvdapp-aponta-interferencias-ilegitimas-no-debate-publico-na-web/. Acesso em 23 set. 2019.

Gazeta do Povo. Disponível em: https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/candidatos/presidente/. Acesso em 23 set. 2019.

GRAGNANI, Juliana. Exclusivo: investigação revela exército de perfis falsos usados para influenciar eleições no Brasil. BBC News, dez. 2017. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42172146 . Acesso em: 24 set. 2019.

HEUER, Wolfgang. LAS TENTACIONES DE LA MENTIRA. Univ. philos., Bogotá, v. 36, n. 72, p. 53-70, jun. 2019.   Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-53232019000100053&lng=en&nrm=iso. Acesso em 23 set.  2019.

LAZER, David et al. The science of fake news. Science. 09 Mar 2018, v. 359, nº 6380, p. 1094-6. Disponível em https://science.sciencemag.org/content/359/6380/1094. Acesso em 23 set. 2019.

LINHARES, Rafael. Uso das redes sociais durante a campanha presidencial de 2018. CPOP, 2019. Disponível em http://www.cpop.ufpr.br/uso-das-redes-sociais-durante-a-campanha-presidencial-de-2018/.  Acesso em 24 set. 2019.

MACHADO, C; STEIBEL F; KNOPACKI, M. O uso de redes sociais em campanhas políticas no Brasil: a transição de estratégias de plataformas abertas para mensageiros interpessoais. Cadernos Adenauer. Rio de Janeiro, v. XIX, n.4 , p. 55-68, dez. 2018.

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VERONESE, Alexandre; FONSECA, Gabriel. Desinformação, fake news e mercado único digital: a potencial convergência das políticas públicas da União Europeia com os Estados Unidos para melhoria dos conteúdos comunicacionais. Cadernos Adenauer. Rio de Janeiro, v. XIX, n.4 , p.35-54, dez. 2018.

Imagem destacada: https://www.megacurioso.com.br/educacao/109811-4-das-fake-news-mais-compartilhadas-na-internet.htm

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